O fim de semana da barbárie e a rotina do medo no Brasil
08/12/2025 às 08h30
Cathierine Hoffmann - Jornalista
Jornalista, formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Comunicadora multimídia, assessora de imprensa e editora reponsável do Expressão Regional
O último fim de semana não foi apenas mais um no calendário, mas sim um doloroso resumo da barbárie que atinge as mulheres no Brasil - e isso é apenas a ponta do iceberg que chegou às manchetes. Em São Paulo, a tragédia chocou: Taynara Souza Santos foi atropelada e arrastada por ciúmes pelo companheiro, Douglas Alves da Silva, em um ato de violência extrema. Na mesma sexta-feira (28), a advogada Laís Angeli foi agredida pelo namorado, um influenciador digital, ecoando a perigosa onda de ódio misógino propagada por movimentos como o red pill.
A dimensão do desespero se aprofunda com o duplo assassinato no Rio de Janeiro: Allane de Souza Pedrotti Matos e Layse Costa Pinheiro foram mortas no próprio local de trabalho, o Cefet, por um servidor que, segundo relatos, ‘não aceitava ser chefiado por mulheres’.
São motivos que se somam em um único denominador: feminicídio.Não há ‘motivo’ que justifique a agressão ou a morte. A jornalista Lia Bock capturou esse sentimento com precisão: ‘Ser mulher é viver entre o medo e o luto, até que, um dia, alguma não vive mais.’
Essa falta de equivalência na violência, que parece ficção, é a nossa estatística cruel. O Brasil registrou 1.450 feminicídios em 2024, além de 2.485 homicídios dolosos, resultando em quase 11 mulheres assassinadas por dia. O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) ainda aponta mais de 71 mil estupros, uma média de 196 a cada 24 horas.
Estes não são apenas números; são vidas interrompidas e um atestado de falência social. A violência contra a mulher não pode ser tratada como ‘previsão do tempo’, algo que atravessa a rotina sem exigir um colapso nacional. É imperativo que a sociedade, as instituições e o poder público despertem para o fato de que ninguém deveria morrer por ser mulher. A urgência não é apenas de punição, mas de uma mudança cultural profunda.