Não é um monstro, é um homem

16/12/2025 às 11h39

Cathierine Hoffmann - Jornalista

Cathierine Hoffmann - Jornalista

Jornalista, formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Comunicadora multimídia, assessora de imprensa e editora reponsável do Expressão Regional

Não é um monstro, é um homem
Não é um monstro, é um homem


Na semana passada, escrevi na minha coluna sobre as atrocidades que temos acompanhado e sobre o quanto perdemos, como sociedade, na luta por respeito às mulheres. Foram muitos os casos de feminicídio %u2014 um atrás do outro %u2014 e hoje, ao abrir o site do Correio do Povo, lá estava mais um: uma mulher morta, seminua, amarrada, dentro de uma lixeira em Porto Alegre. A sensação foi de puro desânimo. Parece uma luta perdida. No Brasil, uma mulher morre a cada seis horas. Não são números, são vidas interrompidas.
Nesta semana, o presidente Lula afirmou que é preciso mudar o foco %u2014 que não basta ensinar mulheres a buscar ajuda, mas educar os homens para que não se tornem agressores. Apesar de eu concordar com a necessidade dessa mudança, não consigo deixar de pensar no timing. Precisaram morrer milhares e milhares de mulheres para que se perceba o óbvio: o problema são eles. Os homens. E algo urgente precisa ser feito %u2014 não com as vítimas, mas com os agressores.
Os requintes de crueldade das mortes e tentativas de feminicídio noticiadas nos últimos dias podem até nos levar a pensar que seus autores são monstros, casos isolados, desumanos, figuras fora da realidade. Mas a repetição, o volume e o perfil desses crimes %u2014 muitos cometidos por homens acima de qualquer suspeita %u2014 escancaram que misoginia não é exceção, não é patologia, não é desvio individual. É estrutura.
A verdade incômoda é que quem ameaça, violenta e mata mulheres não é apenas o ‘maníaco’ distante do imaginário coletivo. São homens comuns. Vizinhos. Colegas de trabalho. Pais. Filhos. Amigos. Companheiros. Homens moldados por uma cultura que, há séculos, constrói e reforça a ideia de que mulheres podem ser controladas, desacreditadas, silenciadas, punidas.
É duro admitir, mas necessário: enquanto não enfrentarmos essa raiz %u2014 enquanto não educarmos os homens, enquanto não colocarmos a responsabilidade onde ela deve estar %u2014 continuaremos a abrir sites e jornais e encontrar mais uma mulher morta. E esse ciclo não pode mais ser tratado como inevitável. É urgente romper.