Entre balanços e afetos: o que realmente se fecha em dezembro
13/01/2026 às 14h35
Anderson Zirbes
Psicólogo clínica de orientação analítica formado pela universidade luterana do Brasil. Atendimentos presenciais e online. Email andersonzirbes@gmail.com - Whatsapp 51 999607493.
O fim do ano não adoece as pessoas %u2014 ele apenas amplifica aquilo que esteve silenciado durante o ano. Dezembro não cria sofrimentos novos; ele os revela. Ao impor pausas, encontros e rituais de fechamento, o calendário convoca cada sujeito a se confrontar com aquilo que foi possível sustentar e com aquilo que precisou ser deixado para trás.
Nesse movimento, nosso narcisismo é inevitavelmente tocado. Não apenas pelo que não alcançamos, mas pelo abalo na imagem idealizada que construímos de nós mesmos. As metas não cumpridas ferem menos pelo resultado concreto e mais pelo que representam: a constatação de que não somos onipotentes, de que nossos desejos nem sempre cabem na realidade que nos atravessa. A ansiedade, então, surge como resposta a esse desencontro entre o ideal e o possível, gerando uma sensação de culpa.
Há ainda uma exigência silenciosa (e cruel) de sentir alegria, gratidão e entusiasmo. Como se o fim do ano obrigasse todos a uma experiência emocional padronizada. Quando isso não acontece, instala-se a culpa: culpa por não corresponder, por não celebrar, por desejar apenas que o ano termine. No entanto, não sentir o que se espera sentir também é uma experiência legítima, ainda que pouco autorizada socialmente.
O chamado balanço psíquico forçado reativa pendências emocionais, lutos antigos, ausências, fracassos e perdas simbólicas. Sonhos que não se concretizaram, vínculos que se romperam, versões de si que não se sustentaram. A tristeza que emerge nesse período, longe de ser necessariamente patológica, pode representar um trabalho psíquico fundamental: o de elaborar limites, perdas e frustrações. Há dores que não pedem correção, mas escuta e atenção.
A solidão também pode se intensificar. Em uma época marcada por discursos de união e pertencimento, muitos se deparam justamente com sua falta. Nunca se fala tanto em estar junto quanto quando o sentimento de estar só se torna mais evidente. Esse paradoxo revela o quanto as festas podem amplificar vazios que foram ignorados durante o ano. Talvez o maior gesto de cuidado neste período seja reduzir as exigências e sustentar o presente como ele é %u2014 imperfeito, ambivalente, possível. Nem todo encerramento precisa ser festivo, nem todo começo precisa vir acompanhado de promessas grandiosas. Reconhecer limites, ser empático é um ato de maturidade emocional.
Diante desse período, talvez a principal orientação seja reduzir as exigências %u2014 internas e externas. Nem tudo precisa ser resolvido, compreendido ou encerrado antes que o ano termine. Permitir-se sentir, sem a urgência de classificar emoções como certas ou erradas, já é um gesto de cuidado. Evitar comparações, especialmente aquelas feitas com versões idealizadas de si ou com recortes irreais da vida alheia, ajuda a diminuir a ansiedade. Respeitar os próprios limites, acolher a tristeza quando ela aparece e buscar apoio %u2014 seja em vínculos de confiança, seja em acompanhamento psicológico %u2014 são formas legítimas de atravessar esse tempo. Pequenas pausas, silêncio, contato consigo mesmo e presença no agora podem oferecer mais sustentação do que promessas grandiosas para o futuro. Caso esses sentimentos estejam causando sofrimento significativo, a busca por atendimento psicológico pode ser uma possibilidade de cuidado e reflexão sobre os afetos mobilizados nesse período.