Debate ainda é relevante?

25/08/2026 às 11h14

Cathierine Hoffmann - Jornalista

Cathierine Hoffmann - Jornalista

Jornalista, formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Comunicadora multimídia, assessora de imprensa e editora reponsável do Expressão Regional

Debate ainda é relevante?
Debate ainda é relevante?


Durante décadas, os debates eleitorais foram um dos grandes momentos de uma campanha. Era ali que candidatos precisavam sair do discurso preparado, responder aos adversários e se colocar diante das perguntas do jornalismo. Muitas vezes, um debate era capaz de mudar a percepção do eleitor. Mas, diante da ausência dos principais nomes nas eleições de 2026, ainda faz sentido realizar debates?
O primeiro encontro presidencial deste ano, realizado pela Band, já nasceu esvaziado. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não participaram. No Rio Grande do Sul, a ausência de nomes como Zucco e Brizola em determinados debates também levanta a mesma discussão. Quando justamente os candidatos mais competitivos não estão no palco, o confronto perde parte de sua razão de existir.
Mas talvez a resposta esteja justamente no papel do jornalismo.
Um bom exemplo vem das eleições gaúchas de 2022. Eduardo Leite chegou ao segundo turno atrás de Onyx Lorenzoni e terminou eleito. Não é possível atribuir a virada aos debates, mas eles ajudaram a colocar os candidatos diante de situações que a propaganda não consegue reproduzir.
Em um dos confrontos, Leite fazia uma pergunta objetiva a Onyx, que não respondia diretamente e desviava para outro assunto. A sequência chegou a lembrar um episódio de Chaves: um perguntava, o outro escapava, a pergunta voltava e a resposta não vinha. Pode parecer apenas uma cena engraçada, mas ali estava uma informação importante para o eleitor: a maneira como um candidato reage quando precisa responder.
Esse é um dos maiores valores do debate. O eleitor não observa apenas o conteúdo da resposta. Observa se o candidato enfrenta a pergunta, explica uma contradição, sustenta uma posição ou simplesmente muda de assunto.
O problema é que os candidatos aprenderam a controlar cada vez mais a própria comunicação. Nas redes sociais, escolhem o cenário, o tempo, a mensagem e até as perguntas que querem responder. É uma comunicação eficiente, mas não é contraditório. E é justamente nesse ponto que o jornalismo precisa insistir. Se os candidatos se afastam dos debates, não significa que o jornalismo deva recuar. Pelo contrário. Em um momento em que se busca recuperar a confiança na imprensa como fonte confiável de informação, cabe ao jornalismo perguntar, confrontar, checar e contextualizar. Se um candidato não comparece, sua ausência deve ser informada. Se não responde, isso também é informação. Se apresenta uma justificativa, ela deve ser apresentada. E as mesmas perguntas precisam continuar sendo feitas, seja em entrevistas individuais ou em outros formatos. Talvez os debates não decidam mais uma eleição sozinhos. Mas continuam sendo uma oportunidade rara de colocar candidatos diante do imprevisto e do contraditório. No fim, o debate não deveria existir para dar palco aos políticos. Deveria existir para dar informação ao eleitor. Porque uma cadeira vazia pode ser notícia. Uma pergunta sem resposta também. E, às vezes, o que um candidato não responde diz tanto sobre ele quanto aquilo que escolheu dizer.