Mulheres no poder

28/09/2026 às 11h00

Cathierine Hoffmann - Jornalista

Cathierine Hoffmann - Jornalista

Jornalista, formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Comunicadora multimídia, assessora de imprensa e editora reponsável do Expressão Regional

Mulheres no poder
Mulheres no poder


Nesta semana, vi duas manifestações que me fizeram pensar. A primeira foi de Fábio Porchat, dizendo que, independentemente de ideologia, já decidiu que votará somente em mulheres. Paulo Germano, no Timeline, da Gaúcha, reforçou uma ideia semelhante.

 

A lógica por trás disso merece reflexão. Historicamente, o mundo  e, por consequência, o Brasil  foi governado majoritariamente por homens. Isso significa que boa parte das decisões tomadas ao longo do tempo, dos caminhos escolhidos e das estruturas que nos trouxeram até aqui carrega, inevitavelmente, uma visão predominantemente masculina de poder. É claro que mulheres sempre estiveram presentes na história do poder. Tivemos rainhas, depois presidentas, primeiras-ministras, governadoras. Mas isso não significa que a lógica de exercício do poder tenha necessariamente mudado. Um exemplo brasileiro recente ajuda a entender o que estou dizendo: a chamada ‘festinha do Viagra’. O episódio envolvendo políticos e o uso de mulheres como parte de uma espécie de moeda de troca expõe uma lógica profundamente masculina de poder  a mulher transformada em objeto, em prêmio, em instrumento de satisfação ou de negociação. E aí penso em alguém como Carmen Lúcia.

 

É difícil imaginar que ela enxergaria uma mulher dessa maneira, como objeto de poder ou como instrumento de negociação. E é justamente aí que está o ponto que me interessa: não se trata apenas de colocar mulheres ocupando cadeiras. Trata-se também de reconhecer que experiências diferentes podem produzir outras formas de enxergar o poder, as relações e as prioridades de um país. Eu sei que, nos cargos executivos  presidente, governador, prefeito  as opções femininas ainda são menores. A realidade eleitoral é essa. Mas, quando olhamos para deputados, senadores e outros espaços do Legislativo, o universo de mulheres candidatas é muito maior. Talvez seja justamente aí que essa discussão precise ganhar força. Não estou dizendo que toda mulher governará melhor, que toda mulher é mais ética ou que basta trocar homens por mulheres para o Brasil mudar. Seria simplista demais. Mulheres também carregam ideologias, interesses, contradições e diferentes visões de mundo. Mas talvez estejamos diante de uma oportunidade histórica de experimentar, de forma mais concreta, uma pluralidade que o poder brasileiro nunca teve em proporção semelhante. Porque não se trata apenas de colocar mulheres no poder para que existam mais pautas femininas. Trata-se de permitir que outras experiências, outras referências e outras formas de compreender as relações de poder também participem das decisões.

 

Talvez um país governado durante séculos majoritariamente por homens precise, simplesmente, experimentar mais mulheres decidindo. Não como uma questão de gênero contra gênero. Mas como a possibilidade de romper uma lógica que já conhecemos muito bem  e que, olhando para a história, sabemos onde nos trouxe.