Flores nas mãos

06/10/2026 às 18h33

Cathierine Hoffmann - Jornalista

Cathierine Hoffmann - Jornalista

Jornalista, formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Comunicadora multimídia, assessora de imprensa e editora reponsável do Expressão Regional

Flores nas mãos
Flores nas mãos


Domingo, 04 de outubro. Invadida por sentimentos, resolvi escrever. Como é ser a mulher que passou tanto tempo suportando que a tristeza, de tão comprimida, mudou de natureza e virou raiva. O cenário para esse sentimento: política brasileira e as mulheres ainda tão invisíveis.


E talvez você não esteja sem entendimento; talvez esteja com sentimento demais, tudo ao mesmo tempo.
Há algumas frases atribuídas a Frida Kahlo que conversam muito com isso. ‘Pinto minha própria realidade.’  Talvez seja a que mais combina com o que estamos vivendo: não tentar explicar o que sente para os outros, mas reconhecer o que está acontecendo dentro. ‘Minha pintura carrega consigo a mensagem da dor.’  A dor não aparece como fraqueza; ela se transforma em expressão. ‘No fim do dia, podemos suportar muito mais do que pensamos que podemos.’  É a Frida resistente, mas também revela o quanto ela precisou suportar. ‘Pinto autorretratos porque estou muitas vezes sozinha, porque sou a pessoa que conheço melhor.’  Essa talvez toque especialmente nessa vontade de que alguém entre dentro de nós e revele o que você nós mesmas não conseguimos organizar. ‘Pinto flores para que não morram.’ Há algo muito bonito nisso: tentar preservar alguma delicadeza enquanto tanta coisa dentro está endurecendo. ‘Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?’  A imagem da mulher que parece precisar de apoio e, ao mesmo tempo, insiste em ser livre. E tem uma que, para mim, explica exatamente essa contradição que é ser mulher: ‘forte, mas dependente’: ‘Amo você mais do que a minha própria pele.’ Ela aparece atribuída a uma carta de Frida para Diego.


É justamente isso: Frida não era uma mulher forte porque não precisava de ninguém. Ela era forte carregando o paradoxo de precisar, amar, sofrer, desejar, revoltar-se e ainda assim continuar sendo ela. E talvez seja isso que esteja acontecendo com as mulheres agora. Não queremos necessariamente uma solução. Queremos ser decifradas. Queremos que alguém olhe para toda essa confusão e diga: ‘Eu sei o que está acontecendo aí dentro. Eu sei de onde veio essa raiva. Sei o que você está tentando proteger. Sei onde dói.’ Só que talvez a raiva tenha aparecido porque a tristeza ficou tempo demais sem testemunha.
As mulheres vêm acumulando coisas no peito durante gerações. Algumas vamos suportando. Outras se racionaliza. Outras talvez tenhamos engolido para não parecer exagerada, carente, frágil ou injusta. Por isso algumas frases são especialmente poderosas: ‘A emoção está nos assumindo.’ Eu mudaria apenas uma coisa: talvez ela não esteja nos assumindo. Talvez ela esteja pedindo para ser assumida por nós. E isso é diferente.


Não precisa decidir nada hoje.
Não precisa entender tudo hoje.
Não precisa ser a mulher forte hoje.
Pode simplesmente admitir:
‘Eu estou com raiva porque estou machucada.


Estou machucada porque me importo. E me importo porque há coisas que ainda significam muito para mim.’ Isso é muito mais Frida do que parecer invulnerável.


E talvez o nosso autorretrato de hoje fosse justamente esse: uma mulher com flores nas mãos e alguma coisa em combustão dentro do peito.