Com aumento das chuvas, verão concentra 44% dos desastres por precipitação no Brasil, aponta estudo
19/01/2026 às 15:16 - Salvador do Sul
O verão é a estação do ano com maior incidência de desastres climáticos relacionados às chuvas no Brasil. É o que revela um estudo da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, que aponta que 44% de todos os desastres registrados nas últimas três décadas ocorreram durante o verão, período marcado por volumes elevados e episódios intensos de precipitação em diversas regiões do país.
O levantamento mostra ainda um crescimento expressivo desses eventos ao longo do tempo. Os desastres causados por chuvas aumentaram 320% na atual década, evidenciando uma tendência de agravamento. Entre 2020 e 2023, foram contabilizados 7.539 eventos, número muito superior aos 2.335 registros de toda a década de 1990.
Os dados fazem parte do relatório ‘Temporadas das Águas: O Desafio Crescente das Chuvas Extremas’, elaborado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, sob coordenação do Programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a UNESCO e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
De acordo com o estudo, 83% dos municípios brasileiros já enfrentaram ao menos um desastre associado às chuvas, proporção que mais do que triplicou desde os anos 1990. No total, 91,7 milhões de pessoas foram afetadas por esses eventos entre 1991 e 2023. Os impactos econômicos também são significativos: apenas entre 2020 e 2024, os prejuízos somam R$ 132 bilhões, valor 123 vezes maior do que o registrado na década de 1990.
Para o coordenador do estudo, Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Unifesp e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), o aumento não se restringe ao número de ocorrências. ‘O crescimento não é apenas em frequência, mas também em gravidade. Os eventos estão mais intensos, mais destrutivos e atingem um número cada vez maior de pessoas’, destaca. Segundo ele, a intensificação das chuvas extremas está diretamente relacionada às mudanças climáticas e tende a se agravar nas próximas décadas.
O relatório também aponta alterações significativas no regime de chuvas no país. Conforme projeções do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), até o final do século, as regiões Sul e Sudeste podem registrar aumento de até 30% no volume de chuvas, enquanto as regiões Norte e Nordeste podem enfrentar redução de até 40%.
Além dos prejuízos materiais, os impactos humanos são expressivos. Entre 1991 e 2023, os desastres relacionados às chuvas causaram 4.247 mortes, deixaram 8,7 milhões de pessoas desabrigadas ou desalojadas e provocaram ferimentos ou doenças em cerca de 654 mil brasileiros.
Diante desse cenário, os pesquisadores reforçam a necessidade de ampliar investimentos em prevenção, adaptação e planejamento urbano, além da adoção de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), como jardins de chuva, ampliação de áreas verdes e sistemas de drenagem sustentável. Essas medidas são apontadas como fundamentais para reduzir alagamentos, deslizamentos e, principalmente, as perdas humanas associadas aos eventos extremos.