Menina de 5 anos transforma pesquisa sobre caracóis em história infantil

Experiência de Mônica Finger mostra como uma descoberta na infância pode se transformar em pesquisa, conhecimento e literatura

30/09/2026 às 08:37 - São José do Sul

Menina de 5 anos transforma pesquisa sobre caracóis em história infantil
Menina de 5 anos transforma pesquisa sobre caracóis em história infantil

Uma concha encontrada na roça, em 2024, despertou a curiosidade da pequena Mônica Finger, de São José do Sul, de apenas cinco anos. O avô da menina, Paulo Mossmann, encontrou o objeto e levou para ela e para o irmão, Felipe. Mônica ficou especialmente interessada. Meses depois, outra concha, encontrada pela avó Claudete Finger, mais conhecida por Deka, aumentou a curiosidade. A menina passou a procurar conchas na terra e na areia. O interesse ganhou um novo rumo quando ela encontrou um caracol na escola. A partir daí, começou a envolver os colegas na descoberta e passou a buscar mais informações sobre o animal. Em casa, o assunto também tomou conta da rotina. ‘Mônica pedia para assistir documentários e vídeos na televisão para aprender mais sobre os caracóis’, conta a mãe, Letícia Mossmann.

A curiosidade acabou se transformando em um projeto de iniciação científica apresentado na Mostra Científica Municipal de São José do Sul, em agosto deste ano. Foi a segunda participação de Mônica no evento. Em 2025, ela havia apresentado um projeto sobre abelhas, que recebeu premiação.Desta vez, porém, o trabalho sobre os caracóis não foi premiado.

A ausência do reconhecimento teve impacto sobre a menina. Segundo Letícia, Mônica havia se dedicado ao projeto e não compreendia por que o resultado havia sido diferente do ano anterior. A mãe, que possui experiência com pesquisa científica na área da educação profissional, conversou com a filha sobre o processo de pesquisa e explicou que nem todo trabalho desenvolvido resulta em uma premiação. No dia seguinte, Mônica encontrou outra forma de continuar aquilo que havia começado. ‘Ela me perguntou se poderia escrever uma história sobre caracóis’, relata Letícia.

A resposta foi afirmativa. Mônica começou imediatamente a desenhar. Quando terminou, levou o desenho para a mãe e pediu: ‘Escreve aí, mãe’. A partir daquele momento, as duas passaram a construir juntas a história. Mônica desenhava e contava o que deveria acontecer; Letícia escrevia. O processo se repetiu até a conclusão do enredo. Depois, veio um novo pedido: que a história se transformasse em livro. ‘Mãe, quero que o livro seja como os teus’, disse Mônica.

Letícia conta que, inicialmente, levou a ideia na brincadeira. Havia pouco tempo que ela própria havia lançado seus livros e a mãe chegou a hesitar diante da possibilidade de a autoria da filha ser questionada. ‘Eu queria proteger ela de comentários como: ‘olha que fofinho... a mãe fez um livro e colocou o nome da filha’’, explica. A insistência de Mônica, no entanto, mostrou que o projeto era levado a sério. Quando Letícia explicou que produzir um livro envolveria trabalho e custos, a menina apresentou uma solução. ‘Mãe, pode pegar todo o meu dinheiro do cofrinho e da minha poupança e mandar fazer os livros.’ A resposta fez a mãe perceber que não se tratava apenas de uma ideia passageira. Letícia passou, então, a trabalhar na edição de ‘Piti e a Folha Azul’, acompanhando Mônica durante as diferentes etapas. A menina participou das decisões, fez sugestões e acompanhou detalhes da produção, incluindo as escolhas relacionadas às cores. Os primeiros exemplares impressos chegaram às mãos das duas no último sábado.

 

Da pesquisa à literatura

Da pesquisa à literatura
Da pesquisa à literatura


Para Letícia, a trajetória de Mônica reforça uma compreensão que já fazia parte de seu trabalho com projetos de pesquisa: o conhecimento produzido por uma investigação não precisa terminar em uma apresentação ou em uma premiação. ‘Uma pesquisa deve gerar algo concreto para a comunidade’, defende. A experiência, porém, acabou levando esse conceito para dentro de casa e mostrou, na prática, o potencial de uma criança para transformar aquilo que aprende. ‘Vejo que todo e qualquer conhecimento produzido tem valor, mesmo sendo de uma criança’, afirma.

Segundo a mãe, o processo também mostrou a importância de adultos reconhecerem e darem espaço às iniciativas das crianças. ‘Muitas vezes, a valorização dessas produções depende da sensibilidade de olhar e dar crédito e voz.’ Na avaliação de Letícia, a maior surpresa foi perceber que a filha encontrou, sozinha, uma maneira de continuar seu caminho depois da frustração vivida na mostra científica. ‘Ela transformou a curiosidade em pesquisa, a pesquisa em conhecimento e, diante de uma frustração, encontrou na literatura uma nova possibilidade de expressão.’

Mais do que acompanhar a produção do livro, Mônica passou a ocupar o lugar de autora. ‘Foi muito bonito perceber que, mais do que aprender com aquilo que vivenciou, ela descobriu o que poderia fazer com tudo isso’, resume Letícia.

 

Mãe e filha juntas na Feira do Livro

Mãe e filha juntas na Feira do Livro
Mãe e filha juntas na Feira do Livro

 

A história de Mônica agora ganha um novo capítulo. Mãe e filha estarão juntas como autoras na Feira do Livro de Montenegro e do Vale do Caí, onde participarão de uma sessão de autógrafos no dia 8 de outubro, às 18h30, na Praça Rui Barbosa, em Montenegro. Letícia também levará ao evento sua produção literária, marcada por histórias inspiradas na região e em acontecimentos cotidianos. ‘Os meus livros são inspirados na nossa gente, na nossa região e nos pequenos acontecimentos que passam despercebidos no cotidiano, mas que moldam quem somos’, explica. A proposta, segundo ela, é aproximar literatura, educação, ciência e tecnologia a partir de situações simples. No caso de Mônica, esse percurso começou com uma concha encontrada na roça. Depois vieram os caracóis, a pesquisa científica, a frustração de não receber uma premiação e, finalmente, uma história. O resultado é ‘Piti e a Folha Azul’, um livro que nasceu de uma experiência infantil e ganhou forma a partir da iniciativa da própria menina.