E se você fosse mais gentil consigo mesmo?
17/08/2026 às 10h51
Gabriela Werlang - Psicóloga CRP 07/36292
Formação em Terapia Cognitivo Comportamental Pós graduanda em Neuropsicologia @eleve.psico
Todos nós conhecemos alguém que oferece um abraço quando percebe a tristeza de um amigo, que encontra palavras de conforto para quem errou ou que estende a mão a quem atravessa um momento difícil. Curiosamente, essa mesma gentileza costuma desaparecer quando o sofrimento bate à nossa própria porta.
Quando falhamos, erramos ou simplesmente não conseguimos corresponder às expectativas que criamos, é comum surgir uma voz severa dentro de nós. Ela acusa, cobra, compara e sentencia: ‘Você deveria ter feito melhor’. Poucas vezes nos perguntamos se trataríamos outra pessoa da forma como tratamos a nós mesmos.
Vivemos em uma cultura que valoriza resultados, desempenho e perfeição. Aprendemos que ser exigente consigo é sinal de responsabilidade e que aliviar a própria dor pode significar acomodação. Talvez por isso tantas pessoas confundam autocompaixão com fraqueza, egoísmo ou falta de compromisso.
A pesquisadora Kristin Neff, uma das principais referências mundiais sobre o tema, mostra que essas crenças são apenas mitos. Em seu ensaio Os Cinco Mitos da Autocompaixão, ela demonstra que acolher a si mesmo diante das dificuldades não significa ignorar erros, mas criar condições emocionais mais saudáveis para enfrentá-los.
Segundo a autora, a autocompaixão não alimenta a autopiedade, não enfraquece, não incentiva a acomodação, não transforma ninguém em narcisista e tampouco reduz a capacidade de cuidar dos outros. Pelo contrário. Estudos apresentados por Neff indicam que pessoas autocompassivas tendem a apresentar maior resiliência, menos ansiedade e depressão, maior disposição para aprender com os próprios erros e relações interpessoais mais saudáveis.
Talvez a maior mudança proposta pela autocompaixão seja simples, embora profundamente desafiadora: substituir o julgamento pelo acolhimento. Não significa deixar de reconhecer falhas, mas compreender que errar faz parte da experiência humana. Afinal, ninguém aprende sem tropeçar.
Em tempos em que tantas pessoas convivem com ansiedade, esgotamento emocional e uma sensação permanente de insuficiência, vale a pena fazer uma pausa e observar como temos conversado conosco. As palavras que dirigimos à nossa própria história também constroem quem somos.
Quem sabe a coragem de seguir em frente não esteja em ser mais duro consigo, mas justamente em oferecer a si o mesmo cuidado, compreensão e respeito que tão facilmente dedicamos às pessoas que amamos. Talvez seja esse o começo de uma vida mais leve, mais consciente e, acima de tudo, mais humana.
Referência: NEFF, Kristin. Os Cinco Mitos da Autocompaixão. Publicado originalmente em Psychotherapy Networker, 30 set. 2015. Tradução em português.
Todos nós conhecemos alguém que oferece um abraço quando percebe a tristeza de um amigo, que encontra palavras de conforto para quem errou ou que estende a mão a quem atravessa um momento difícil. Curiosamente, essa mesma gentileza costuma desaparecer quando o sofrimento bate à nossa própria porta.
Quando falhamos, erramos ou simplesmente não conseguimos corresponder às expectativas que criamos, é comum surgir uma voz severa dentro de nós. Ela acusa, cobra, compara e sentencia: ‘Você deveria ter feito melhor’. Poucas vezes nos perguntamos se trataríamos outra pessoa da forma como tratamos a nós mesmos.
Vivemos em uma cultura que valoriza resultados, desempenho e perfeição. Aprendemos que ser exigente consigo é sinal de responsabilidade e que aliviar a própria dor pode significar acomodação. Talvez por isso tantas pessoas confundam autocompaixão com fraqueza, egoísmo ou falta de compromisso.
A pesquisadora Kristin Neff, uma das principais referências mundiais sobre o tema, mostra que essas crenças são apenas mitos. Em seu ensaio Os Cinco Mitos da Autocompaixão, ela demonstra que acolher a si mesmo diante das dificuldades não significa ignorar erros, mas criar condições emocionais mais saudáveis para enfrentá-los.
Segundo a autora, a autocompaixão não alimenta a autopiedade, não enfraquece, não incentiva a acomodação, não transforma ninguém em narcisista e tampouco reduz a capacidade de cuidar dos outros. Pelo contrário. Estudos apresentados por Neff indicam que pessoas autocompassivas tendem a apresentar maior resiliência, menos ansiedade e depressão, maior disposição para aprender com os próprios erros e relações interpessoais mais saudáveis.
Talvez a maior mudança proposta pela autocompaixão seja simples, embora profundamente desafiadora: substituir o julgamento pelo acolhimento. Não significa deixar de reconhecer falhas, mas compreender que errar faz parte da experiência humana. Afinal, ninguém aprende sem tropeçar.
Em tempos em que tantas pessoas convivem com ansiedade, esgotamento emocional e uma sensação permanente de insuficiência, vale a pena fazer uma pausa e observar como temos conversado conosco. As palavras que dirigimos à nossa própria história também constroem quem somos.
Quem sabe a coragem de seguir em frente não esteja em ser mais duro consigo, mas justamente em oferecer a si o mesmo cuidado, compreensão e respeito que tão facilmente dedicamos às pessoas que amamos. Talvez seja esse o começo de uma vida mais leve, mais consciente e, acima de tudo, mais humana.
Referência: NEFF, Kristin. Os Cinco Mitos da Autocompaixão. Publicado originalmente em Psychotherapy Networker, 30 set. 2015. Tradução em português.